
Se vivo estivesse, Nelson Rodrigues diria que para Arnaldo Jabor não existe acontecimento banal. Tudo encontra em seus comentários significado transcendente. Ciclone nos Eua, por exemplo, é fruto das transformações da era Bush. Atropelamento em Brasília? Culpa de Lula, cujas origens sindicalistas, blá, blá, blá. O cotidiano no Rio de Janeiro arranca do cronista lamentos de auto-comiseração, vaticínios sinistros, esgares de ópera bufa.
Ironizo com um sorriso no rosto, pois guardo simpatia pelos truões radicais -- de qualquer espectro político e motivação ideológica. São eles que dão gosto à vida. Quem defende mundo de discretos consensos, de preceitos imaculados, ou flerta com a mediocridade, ou já namora com o totalitarismo. A beleza da existência, o êxtase da finitude humana, definitivamente estão no quebra-pau. E se tal quebra-pau envolver um, dois ou mais clowns sedutores e histriônicos, melhor ainda.
Não seria lindo se, em 2010, ainda tivéssemos Glauber Rocha entre nós? Imaginem ele e Jabor sentados em um estúdio, ao vivo, sob patrocínio dos Sabonetes Coxotó, batendo boca. Quantas ilações maravilhosas, quantos diagnósticos tonitruantes, quantas canastrices?
Daqui há vinte anos lembraríamos, saudosos, o que ouvimos e não ouvimos. Sim, porque momentos como esses provocam nos espectadores uma furibunda criatividade. Diante do opinólogo compulsivo, do falastrão panorâmico, o ouvinte é quase um rei. Ganha direito divino de imaginar e propagar qualquer coisa.
Vejamos Nelson Rodrigues -- sempre ele: escrevia odes libertárias, chamava a constituição de "prostituição", mas foi tachado por seus pares de "reacionário". E Nelson amava o xingamento, sabendo que justamente esse contraditório tornava-o personalidade curiosa. No futuro distante -- hoje -- muitos se debruçam na esperança de "desvendá-lo", e assim o eternizam.
Sobrevivente dos anos 60 e 70, Jabor teve todo tempo para observar Nelson. Busca imitar sua verve, acrescentando pitadas de lembranças da UNE e o olhar azul de menino (nascido em 1940, 70 anos) bonito. E assim grita, grita alto. Se descabela. Gera o contraditório do cineasta carioca, ex-esquerda festiva, propagando ideais da classe-média paulistana. Falta um baiano -- Glauber? -- para afrontá-lo, ou até mesmo calar sua boca. Sinto necessidade de outro radical, parlapatão dionisíaco, que consiga equilibrá-lo.
Aí o leitor pergunta: as custas de quê tamanha introdução? Para voltarmos a 1973, quando aos 32 anos o moço Jabor resolveu adaptar para a tela grande uma peça do seu ídolo Nelson, "Toda Nudez Será Castigada". Vinha de uma provocação excelente -- "Opinião Pública" (1967) -- e uma alegoria cinemanovista obscura -- "Pindorama" (1970), depois de fazer parte do Centro Popular de Cultura, colaborar em jornaizinhos revolucionários e estudar Direito na burguesa PUC.
Em 1963, participou ainda da equipe de “Ganga Zumba”, longa de Cacá Diegues, além de dirigir o curta-metragem “O Circo” (1965). Nos idos da década de 70, após o fracasso de “Pindorama”, realiza sua primeira transição: da parafernália sociológica do Cinema Novo para o melodrama rasgado, sem medo do ridículo, protagonizado por Darlene Glória e Paulo Porto em “Toda Nudez”.
“Herculano, quem te fala é uma morta!”, ouvindo o apelo de Geni (Darlene), o macambúzio Herculano (Porto), relembra sua travessia pelo inferno feminino. Vivendo em uma casa cheia de tias conspiradoras, pai do esquisito Serginho (que tem o hábito de cheirar os fundilhos das calças alheias), o homem tem aquele norte moral dos personagens rodrigueanos. Semelhante a Sabino, de “O Casamento”, Herculano nem é ruim: apenas guarda tantos esqueletos no armário que a peça, o filme, viram expiação desses problemas, antes de narrativa sóbria.
E Jabor foi extremamente feliz em perceber que, de sobriedade, o texto de Nelson não tinha nada: cai de boca na interpretação possuída de Darlene Glória e no ar compungido do excepcional Paulo Porto. Ela, a prostituta que temia o câncer no seio, dá um baile nele, o viúvo que prometeu sua castidade em troca do platônico amor homossexual do filho.
A mãe morta – que Geni substituirá incestuosamente – guia toda a decadência da família. E se o universo rodrigueano é basicamente composto de famílias decadentes, essa aqui tem na obsessão pela morta seu único elemento agregador. O governo da esposa falecida é outro mote repetido -- desde o folhetim “Meu Destino É Pecar”, que Nelson assinou em 1944 com o pseudônimo de Suzana Flag.
Acompanhando de perto a recriação da peça, Nelson foi tomado de um entusiasmo retumbante. Em 27 de novembro de 1972 escreveria em suas célebres confissões: “(...) Sua direção é magistral. Excelente Jabor, com seu clima de último romântico. Sempre que o encontro, digo-lhe: '--Não seja tão inteligente'”.
Na mesma confissão, Nelson conta que elaborou “Toda Nudez” em um domingo, ao ouvir a conversa de duas vizinhas. Uma relatava para a outra o suicídio de Marilyn Monroe. E Nelson tinha, pelo suicídio, a mesma paixão que eu tenho pelos bufos radicais e pelas idéias cálidas: achava que Deus prefere os suicidas.
Em associação que só a mente de um lúdico poderia engatar, concluiu que a morte de Marilyn guardava semelhanças com a famosa pose despida na folhinha da Playboy, em dezembro de 1953. Morrendo igualmente nua, a atriz morreu folhinha. E sua nudez foi uma espécie de predestinação trágica.
Produzido pelo ator principal, Paulo Porto, “Toda Nudez” conquistou espaço inovador nas bilheterias: um filme comercial, baseado em autor popular e realizado por um diretor que na época andava -- conseqüência de “Pindorama” -- acusado dos piores ranços da egotrip cinemanovista.
Salas cheias, aplausos durante a exibição, devem ter mudado a cabeça de Jabor sobre o que fazer dali pra frente. Pelo menos até que o famoso general Antônio Bandeira decidisse proibir um lote de filmes já em cartaz, inclusive o badalado “Toda Nudez”.
Acontece que o filme tinha sido levado ao Festival de Berlim, o que gerou situação espúria: proibido em território nacional, representou o Brasil e ganhou o Urso de Prata em um festival importante. A proibição acabou revogada e o público teve acesso ao trabalho, que àquela altura ganhava quase status de unanimidade.
Criticado por tantos no século XXI, Arnaldo Jabor pode relaxar: se a paixão e o excesso não o fizerem um clássico do pensamento brasileiro, o cinema já fez. Dono de inteligência descomunal e talento idem, quando toda a contingência política baixar, quando as demandas ocasionais não fizerem mais nenhum sentido, enxergaremos o gênio por trás da máscara. Tal fenômeno aconteceu com Nelson Rodrigues. Com Glauber Rocha. E, com certeza, a história absolverá também Jabor.
Texto escrito por Andrea Ormond, publicado no blog Estranho Encontro (http://www.estranhoencontro.blogspot.com).

Nenhum comentário:
Postar um comentário